domingo, 27 de maio de 2018

Clitóris - peculiaridades da Hiena-Malhada


 O sistema reprodutor feminino é bastante complexo e interessante, carregando consigo órgãos externos e internos. Neste texto buscaremos comparar um órgão externo denominado clitóris em relação a um outro mamífero bastante conhecido da savana africana, a Hiena-malhada (Crocuta crocuta).
 Para começarmos precisamos entender a importância e função do clitóris no sistema reprodutor feminino como um todo, uma pequena estrutura que ocupa um espaço na vulva, que por sua vez engloba todos os órgãos genitais femininos externos. Pois bem, o clitóris apresenta uma parte homóloga ao pênis masculino, denominada de “glande do clitóris”, que por sua vez também responde a estímulos táteis, participando diretamente na excitação sexual feminina. Assim sendo um órgão formado por tecido erétil e nervoso, que se localiza entre os lábios menores, na sua junção, sendo coberto por uma camada de pele chamada de prepúcio do clitóris. Apresenta, ainda, corpos cavernosos semelhantes ao do pênis masculino que se curvaram e fixam ao púbis e ísquio em seus ramos.



FIGURA 1. Sistema reprodutor feminino humano-órgãos externos.

 Todavia mesmo sendo considerado um órgão bastante funcional e importante na excitação feminina, participando diretamente na relação sexual, o clitóris não possui função direta na reprodução, o que o difere na espécie que iremos analisar e comparar, que possui,  por sua vez, um clitóris superdesenvolvido (apelidado de “pseudopênis”) utilizado na reprodução.
 Por anos considerado um animal hermafrodita a hiena-malhada (Crocuta crocuta) possui um órgão bastante curioso e discutido no mundo cientifico, podendo possuir até 17 cm de comprimento, o clitóris da hiena-malhada (Crocuta crocuta) é muito funcional e se tornou tão desenvolvido devido à grande presença de hormônios, como a testosterona. Na hiena o clitóris é utilizado para urinar, não havendo, por meio dele, a liberação de esperma e sua maior função está extremamente ligada à sua reprodução. 




 
FIGURA 2. Clitóris da Hiena Malhada.

 Diferentemente dos humanos, nas hienas-malhadas o clitóris é utilizado na fecundação e no parto do filhote. A fecundação é bastante complicada e peculiar, podendo levar algumas horas, além da fêmea ter que retrair um pouco o seu clitóris, o macho precisa conseguir acertar um “tubo”, que apresenta o mesmo formato do seu pênis. Além disso, o macho não consegue forçar uma relação sexual, pois sem a retração do clitóris da fêmea a penetração não é permitida.  Já no parto a situação complica ainda mais para mães de primeira viagem, que sofrem bastante no parto, devido ao tamanho do filhote e do pequeno tamanho do clitóris, cerca de mais da metade dos filhotes podem ficar presos no “pseudopênis” e sufocam antes mesmo de nascerem, o que também é prejudicial a mãe, vindo até mesmo a ser fatal. Entretanto, depois do ocorrido o “pseudopênis” é levemente rasgado, tornando-se maleável e de fácil passagem, facilitando as próximas gestações.



FIGURA 3. Sistema reprodutor feminino – Hiena Malhada.

 Contudo, então por que ter uma genitália tão controversa?
A resposta pode ser mais complicada do que imaginamos. Acreditavam na ideia de afastar pretendentes, porem as hienas fêmeas já possuem grande dominância e não precisariam da estrutura peculiar para isso. Havia também uma discussão acerca do uso do clitóris para se misturar com os machos e causar confusão, entretanto existem várias outras maneiras de perceber a diferença entre uma hiena macho e fêmea. Com isso depois de vários estudos científicos, não se tem a verdadeira resposta de porquê tal órgão seria funcional para as hienas, já que traz tantas dificuldades e problemas para a fêmea.



 Escrito por Mateus Xavier.

REFERÊNCIAS:

TORTORA, G.J.; NIELSEN, M. Princípios da Anatomia Humana. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.
CUNHA, GR. et al. Urogenital system of the spotted hyena (Cocruta crocuta Erxleben): a functional histological study. J Morphol; 2003 May.
GLICKMAN, SE. et al. Mammalian sexual differentiation: lessons from the spotted hyena. Trends Endocrinol Metab; 2006 Nov.
FRANK, Laurence G.. Evolution of genital masculinization: why do female hyaenas have such a large ‘penis’?. Trends In Ecology & Evolution, [s.l.], v. 12, n. 2, p.58-62, fev. 1997.
CUNHA, Gerald R. et al. Development of the external genitalia: Perspectives from the spotted hyena (Crocuta crocuta). Differentiation, [s.l.], v. 87, n. 1-2, p.4-22, jan. 2014.
FRANKAND, L. G.; GLICKMAN, S. E.. Giving birth through a penile clitoris: parturition and dystocia in the spotted hyaena (Crocuta crocuta). Journal Of Zoology, [s.l.], v. 234, n. 4, p.659-665, dez. 1994.


REFERÊNCIAS DAS FIGURAS:

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Equilíbrio Osmótico e Iônico: fisiologia do néfron humano comparado ao néfron e a glândula retal de elasmobrânquios

As espécies variam sua excreção de compostos nitrogenados de acordo com disponibilidade de água que o organismo está sujeito, podendo ser essas excretas liberadas na forma de amônia, ureia ou ácido úrico e alguns sais minerais. Para que ocorra a eliminação desses compostos é preciso diferentes tipos de órgãos osmorreguladores que, no caso dos mamíferos, será pelo rim (Figura 1) e nos elasmobrânquios pelo o rim e suas glândulas de sal (RANDALL et al, 2000).

         Figura 1) Representação esquemática do rim humano.

                        Fonte: RANDALL et al, 2000.


Nos mamíferos o rim tem como unidade funcional o néfron, formado pelo corpúsculo renal (figura 2) e uma estrutura tubular (figura 3). O corpúsculo renal é formado por um enovelado de capilares advindos da arteríola aferente, que se divide em 5 a 8 ramos e posteriormente subdivide em 20 a 40 alças capilares. As alças capilares são compostas por células mesangiais (figura 2), que possui elementos contrateis e desempenha função de fagocitose dos agregados moleculares presos na parede do glomérulo, dando origem a arteríola eferente do glomérulo (AIRES, 2015). A filtração glomerular acontece devido a existência de uma descontínua rede de células endoteliais formando fenestrações que permitem a passagem de substâncias, mas impossibilita a passagem de elementos figurados do sangue (AIRES, 2015). 

  Figura 2) Representação esquemática do glomérulo humano.          







   Fonte: Randall et al, 2000.


 Figura 3) Representação esquemática do néfron humano.

                                                                                                      Fonte: Aires, 2015.                                                                                      

Randall (2000) descreve que as regiões que formam a estrutura tubular são chamadas de túbulo proximal, alça de Henle, túbulo distal e o ducto coletor. O túbulo proximal realiza a concentração do filtrado vindo do glomérulo, e reabsorve parte desse filtrado (sódio, potássio, cloreto, água entre outros) por transporte ativo, no qual, cerca de 75% desse produto do glomérulo é reabsorvido antes de alcançar a alça de Henle. Esta absorção se deve a existência de uma bordadura em escova contendo numerosas microvilosidades (figura 4), lembrando que o glomérulo é revestido pela capsula de Bowman.  A alça de Henle é formada por 3 porções: uma porção fina descendente contendo algumas mitocôndrias e nenhuma bordadura em escova, apresentando grande permeabilidade de água  e baixa absorção de  NaCl e uréia a favor do gradiente osmótico; uma porção ascendente delgada com reabsorção de NaCl mesmo  não possuindo transporte ativo, e não reabsorve água e uréia; e uma porção ascendente grossa que difere do restante da alça de Henle, pois demonstra a existência  de transporte ativo do lúmen para a interstício responsável por grande reabsorção de NaCl e  elevada reabsorção de Mg+ ( RANDALL et al, 2000; AIRES, 2015). 

Figura 4) Representação esquemática da microvilosidade (bordadura em escova).
                                                           Fonte: Randall et al, (2000).


O túbulo distal é uma região apical com poucas microvilosidades e rico em mitocôndrias; este, por sua vez, reabsorve NaCl, bicarbonato e cálcio, além de secretar hidrogênio e amônia; e pode tanto secretar como absorver potássio. A secreção de hidrogênio e potássio e a reabsorção de sódio são estimuladas pela aldosterona (AIRES, 2015).

A última porção do néfron é chamada de ducto coletor, este, por sua vez, tem grande variedade de células, dentre as quais, as células intercalares tipo α são responsáveis pela secreção ativa de H+ e K+ e as células intercalares tipo β secretam bicarbonato se o indivíduo tiver uma dieta alcalina (AIRES, 2015). A absorção de água é aumentada devido a ação do hormônio antidiurético-ADH, permitindo homeostase com o interstício hipertônico. Na ausência do ADH não há reabsorção de água pelo ducto coletor, podendo então haver a reabsorção de soluto, devido ao meio ter tornado o meio intratubular hipotônico pela reabsorção de soluto.
Como visto o néfron humano consiste em concentrar a urina, possibilitando a produção de urina hipertônica. Já os elasmobrânquios apresentam feixes tubulares que retém a uréia do filtrado com o objetivo de conservar o composto nitrogenado para regulação do plasma comparado com a concentração hipertônica de NaCl existente no oceano, dessa forma os elasmobrânquios necessitam de órgãos osmorreguladores extra-renais eficientes como a glândula retal que possui um grande número de túbulos de fundo cego e que se abre próximo ao reto para eliminar a quantidade de NaCl extracelular do organismo (RANDALL et al, 2000).
Randall et al. (2000) descreve que o líquido produzido pelo órgão tem concentrações de sal mais alta do que do oceano, mas isosmótico comparado ao plasma sanguíneo do peixe, devido ao ajuste oferecido pelas altas concentrações de uréia e de óxido de trimetilamina (OTMA), os quais não são excretados pelo peixe. A regulação osmótica só acontece devido a membrana basolateral apresentar bombas de Na+/K+ e canais de K+, que geram um gradiente de sódio permitindo a excreção de NaCl por um sistema de transporte. Quando Na+/K+ passa pela membrana basolateral o nível eletroquímico de Cl- no meio intracelular aumenta, e então, começa a sair pelos canais de cloreto o Cl- em excesso, dessa forma cria um gradiente eletroquímico para difusão de Na+onde a água irá transportar o íons de NaCl, resultando no  soluto da glândula retal (Figura 5) (RANDALL et al, 2000).

Figura 5) Representação esquemática da glândula de sal.







         Fonte: Randall et al, (2000).


 Escrito por Eriks Oliveira


Referências
AIRES, M. M. Fisiologia. 4.ed. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 2015.  682- 688 p.
RANDALL, D.; BURGGREN, W.; FRENCK, K. E. Fisiologia Animal: Mecanismos e Adaptações. 4. ed. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 2000. 547-566 p.

Referência das imagens
Imagens II) AIRES, M. M. Fisiologia. 4.ed. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 2015.  682- 688 p.
Imagem I, III, IV e V) RANDALL, D.; BURGGREN, W.; FRENCK, K. Eckert - Fisiologia Animal: Mecanismos e Adaptações. 4. ed. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 2000. 547-566p.